Existe uma diferença entre as coisas que importam e as que não importam.
As coisas que não importam são aquelas às quais chamamos de "coisas importantes". Essas não importam. Elas são as coisas das quais ouvimos falar, nas quais somos estimulados a interferir, aquelas que estão na boca do povo, aquelas que estão na boca das elites, aquelas que estão na boca de políticos, jornalistas, ambientalistas, médicos, empresários, fanáticos.
As coisas que importam são aquelas que conversam com você. Que ao perguntar-se o por quê de estar fazendo ou pensando em algo, você não acha resposta. Aquelas que não importam para a humanidade, ou para a história, ou para a família, amigos, chefes, namoradas, vizinhos ou quem quer que seja. Hoje eu tenho um guarda-chuva colorido que comprei no farol. É isso - e apenas isso - que, agora, importa.
sábado, 9 de julho de 2011
sexta-feira, 8 de julho de 2011
domingo, 19 de junho de 2011
Amor
Estou no quase há quase muitos anos. Quase fui o primeiro da classe, quase ganhei aquela aposta, quase passei no curso que queria, quase consegui, quase conquistei, quase falei o que queria ter falado, quase fiz o que queria ter feito. Quase escrevi um texto que não falasse de amor... quase.
De tantos quases se fez minha vida que o coração já acostumou a bater convulsivamente quando me coloco um novo objetivo, que as mãos já tremem e transpiram mais do que o normal, que bato o cigarro mais vezes do que pisca uma árvore de natal no período de um minuto, que os intestínos protestam ferozmente, os olhos e os dedos e a boca ganham tíques inéditos, e os ombros travam e a coluna fica estática negando comunicação com os pés, reduzindo-me apenas à física do meu corpo que não se afasta mais que alguns poucos centímentros da região à qual atribuímos a consciência. O corpo retraído, a cabeça baixa, os olhos fundos, as vontades caladas, medo...
Quase virei ator desta vez. Foi por muito pouco, mesmo. Dizem que até o fim da vida nós sempre nos esforçaremos para quebrar a mesma pedra... sempre a mesma pedra. E grande parte desta pedra nos foi dada sem que pudessemos escolher, ainda mais para alguém com vinte e poucos anos de idade, criado embaixo de longas asas. Depois nós vamos acrescentando mais e mais matéria à nossa pedra para quebrarmos mais tarde, mas da pedra que tenho hoje eu quase nada escolhi. E ainda assim, quase a quebrei.
Dizem que no final de um ciclo sempre vem o começo de um novo... e hoje eu não falei de amor.
De tantos quases se fez minha vida que o coração já acostumou a bater convulsivamente quando me coloco um novo objetivo, que as mãos já tremem e transpiram mais do que o normal, que bato o cigarro mais vezes do que pisca uma árvore de natal no período de um minuto, que os intestínos protestam ferozmente, os olhos e os dedos e a boca ganham tíques inéditos, e os ombros travam e a coluna fica estática negando comunicação com os pés, reduzindo-me apenas à física do meu corpo que não se afasta mais que alguns poucos centímentros da região à qual atribuímos a consciência. O corpo retraído, a cabeça baixa, os olhos fundos, as vontades caladas, medo...
Quase virei ator desta vez. Foi por muito pouco, mesmo. Dizem que até o fim da vida nós sempre nos esforçaremos para quebrar a mesma pedra... sempre a mesma pedra. E grande parte desta pedra nos foi dada sem que pudessemos escolher, ainda mais para alguém com vinte e poucos anos de idade, criado embaixo de longas asas. Depois nós vamos acrescentando mais e mais matéria à nossa pedra para quebrarmos mais tarde, mas da pedra que tenho hoje eu quase nada escolhi. E ainda assim, quase a quebrei.
Dizem que no final de um ciclo sempre vem o começo de um novo... e hoje eu não falei de amor.
segunda-feira, 23 de maio de 2011
Pele
Hoje sonhei com uma garota, menina ou mulher. Ela tinha um poder especial: quando tocava em alguém, pele na pele, podia ler seus pensamentos. O curioso é que ela lia algumas coisas em mim quando eu a tocava que nem eu me lembrava. Outras leituras eram mais imediatas, ela lia o que eu estava pensando naquele momento, também...
Depois de alguma prática eu conversava com ela por pensamentos e, algumas coisas que vinham sem querer à minha mente eu bloqueava, parava de pensar. E funcionava, mas ela percebia que eu havia bloqueado alguma coisa porque, de repente, um pensamento sumia e ficava tudo vazio. Ela me perguntava e eu dizia que não era nada que precisasse ser falado. Acho que ela entendia bem que nem tudo precisa ser dito. Afinal, quem mais do que ela já devia ter sofrido por saber mais do que precisava saber? Acho até que ela ficou um pouco feliz e curiosa quando percebeu que não podia tirar tudo o que ela quisesse de mim. Deve ter se sentido um pouco mais humana, um pouco mais impotente, um pouco mais real.
No princípio, meu alivio foi saber que com ela eu não precisaria mentir porque ela certamente conhecia mais sobre homens e sobre pessoas do que qualquer outra mulher. Mas quando notei que começei a desenvolver certa habilidade para bloquear pensamentos percebi que até a ela eu poderia enganar. Por outro lado, vale lembrar que o que eu conseguia bloquear eram os pensamentos do momento, mas eu bem sabia que ela podia ler outras regiões da minha mente às quais nem eu tinha acesso... Isso também me excitava, assim como excitava a ela a minha habilidade de encobrir pensamentos.
Nesta relação comecei a ver uma possibilidade de ser honesto até mesmo quando mentindo. Ela saberia que eu estava ocultando algo e, assim que soubesse, ambos saberiamos que eu estava ocultando algo por ser desnecessário. E ela não perguntaria o que era, saberia que minhas intenções eram as melhores. Ela saberia também que minha fidelidade era plena, pelas regiões que lia e que eu não tinha acesso. Logo, tudo ficaria bem.
Contanto que pudessemos continuar usando a desculpa da comunicação para ficar pele na pele, não nos importavamos com a invasão dos pensamentos. Nem eu, nem ela. Aos poucos fomos nos tornando um, e ela foi ficando tão revelada para mim quanto eu para ela.
Ainda assim, tinhamos nossas zonas de sombra. Ainda assim tinhamos nossos segredos. Tinhamos a sensatez de preservar e respeitar um ao outro, pois quando todas as cartas estivessem na mesa não haveria mais justificativa para o toque. E ai teriamos que assumir que, na verdade, desde o início, era puro desejo de prazer, pura atração. Ficariamos constrangidos de nos tocar sem fazer amor.
E talvez não fosse isso que queriamos. Talvez precisassemos de mais tempo.
Depois de alguma prática eu conversava com ela por pensamentos e, algumas coisas que vinham sem querer à minha mente eu bloqueava, parava de pensar. E funcionava, mas ela percebia que eu havia bloqueado alguma coisa porque, de repente, um pensamento sumia e ficava tudo vazio. Ela me perguntava e eu dizia que não era nada que precisasse ser falado. Acho que ela entendia bem que nem tudo precisa ser dito. Afinal, quem mais do que ela já devia ter sofrido por saber mais do que precisava saber? Acho até que ela ficou um pouco feliz e curiosa quando percebeu que não podia tirar tudo o que ela quisesse de mim. Deve ter se sentido um pouco mais humana, um pouco mais impotente, um pouco mais real.
No princípio, meu alivio foi saber que com ela eu não precisaria mentir porque ela certamente conhecia mais sobre homens e sobre pessoas do que qualquer outra mulher. Mas quando notei que começei a desenvolver certa habilidade para bloquear pensamentos percebi que até a ela eu poderia enganar. Por outro lado, vale lembrar que o que eu conseguia bloquear eram os pensamentos do momento, mas eu bem sabia que ela podia ler outras regiões da minha mente às quais nem eu tinha acesso... Isso também me excitava, assim como excitava a ela a minha habilidade de encobrir pensamentos.
Nesta relação comecei a ver uma possibilidade de ser honesto até mesmo quando mentindo. Ela saberia que eu estava ocultando algo e, assim que soubesse, ambos saberiamos que eu estava ocultando algo por ser desnecessário. E ela não perguntaria o que era, saberia que minhas intenções eram as melhores. Ela saberia também que minha fidelidade era plena, pelas regiões que lia e que eu não tinha acesso. Logo, tudo ficaria bem.
Contanto que pudessemos continuar usando a desculpa da comunicação para ficar pele na pele, não nos importavamos com a invasão dos pensamentos. Nem eu, nem ela. Aos poucos fomos nos tornando um, e ela foi ficando tão revelada para mim quanto eu para ela.
Ainda assim, tinhamos nossas zonas de sombra. Ainda assim tinhamos nossos segredos. Tinhamos a sensatez de preservar e respeitar um ao outro, pois quando todas as cartas estivessem na mesa não haveria mais justificativa para o toque. E ai teriamos que assumir que, na verdade, desde o início, era puro desejo de prazer, pura atração. Ficariamos constrangidos de nos tocar sem fazer amor.
E talvez não fosse isso que queriamos. Talvez precisassemos de mais tempo.
terça-feira, 10 de maio de 2011
F5
01011100010100011011100100000111101011011011011010101100100101010111110100010010
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Fotos, frases, desejos, devaneios, tentativas paradoxais de preencher o vazio bem no meio de um buraco negro. Eventos, convites, chamados, perguntas, contatos, trechos não vividos de vidas passantes, narrados com beleza e precisão. Às vezes não, nem isso.
F5. 0101010011000001110101010001111011010101010110000011011011101100010110101
Caneta riscando palavras, marca textos grifando frases, olhos correndo nas páginas, espiando vez ou outra, olhos correndo linhas, páginas, de tinta, de celulose, de óxido de zinco, sulfeto de zinco, substrato de vidro, cristal líquido.
Primeiros contatos de alguns. Últimos de outros, ao menos por hora. Despedidas. Buscas. Espera...
F5. 111100100101101111010101010111000101010111000
Um cigarro. Dois, três, quatro. "Ok", "desbloquear". Extensa lista curta de mais. Café, só pra ficar mais poético do que coca-cola.
F5. 01000110111010110011
Manifestações embriagadas de espectros notívagos remanescentes das últimas atualizações.
F5. 01011001
Alguém que escreve, alguém que cria, alguém que chora... e eu.
F5. 011
Alguém que espera.
O número chamado encontra-se indisponivel ou fora da area de cobertura.
Eu.
F5.
0...
0...
0...
010101000001101111101010101010111101011101001010010010000101110111010101010101
Fotos, frases, desejos, devaneios, tentativas paradoxais de preencher o vazio bem no meio de um buraco negro. Eventos, convites, chamados, perguntas, contatos, trechos não vividos de vidas passantes, narrados com beleza e precisão. Às vezes não, nem isso.
F5. 0101010011000001110101010001111011010101010110000011011011101100010110101
Caneta riscando palavras, marca textos grifando frases, olhos correndo nas páginas, espiando vez ou outra, olhos correndo linhas, páginas, de tinta, de celulose, de óxido de zinco, sulfeto de zinco, substrato de vidro, cristal líquido.
Primeiros contatos de alguns. Últimos de outros, ao menos por hora. Despedidas. Buscas. Espera...
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Um cigarro. Dois, três, quatro. "Ok", "desbloquear". Extensa lista curta de mais. Café, só pra ficar mais poético do que coca-cola.
F5. 01000110111010110011
Manifestações embriagadas de espectros notívagos remanescentes das últimas atualizações.
F5. 01011001
Alguém que escreve, alguém que cria, alguém que chora... e eu.
F5. 011
Alguém que espera.
O número chamado encontra-se indisponivel ou fora da area de cobertura.
Eu.
F5.
0...
0...
0...
domingo, 8 de maio de 2011
Devaneio
Levei vinte e poucos anos pra começar a entender o que é se entregar à arte. Levarei mais uns vinte e tantos para saber como fazê-la. Depois mais uns vinte e muitos para dominá-la e aperfeiçoa-la... e, se tiver sorte, não viverei os próximos vinte, para não ter que descobrir que de arte, amor e vida eu nunca soube nada.
segunda-feira, 2 de maio de 2011
Da menor importância.
Ele já estava nas últimas. Eu o tratava como se fosse uma frágil criaturinha, sem forçar muito contato ou relação para que não o desgastasse. A impressão que todos tinham é que ele poderia parar de respirar a qualquer momento, fugir para um mundo alheio ao nosso com passagem só de ida.
Acabou a bateria do meu celular e não acho o carregador.
Acabou a bateria do meu celular e não acho o carregador.
sexta-feira, 15 de abril de 2011
Sobre o privilégio do personagem
O peronagem é livre para ser o que deseja, dizer e fazer o que quiser. Só ele pode ser o que quer sem julgamentos nem conseqüências. Ele não tem um cpf, rg ou residência para tirar satisfação. Ele existe no instante presente e nada mais, assim como o período de existência que nós deveriamos entender que temos, mas não aceitamos a finitude de algo tão superior como nós. Nós inventamos o "até amanhã".
O personagem pode ser parcial para qualquer lado que quiser, pode defender o que quiser, o que muda o caráter da mentira que o ator por trás da máscara conta para representação. A partir do momento que o argumento do ator é transferido à boca do personagem, ele passa a ser apenas mais uma visão da realidade. E esse ponto de vista é ainda mais eficiente do que se fosse dado por um ser humano. Contra o personagem nós não temos preconceitos humanos, resistências ou escudos, pois com eles não temos uma relação - como teriamos em qualquer relação humana - de interesse. Eles não vão querer nada de nós quando aquele momento chegar ao fim, nós não vamos querer nada deles quando o momento chegar ao fim, simplesmente porque eles não vão mais existir.
Falar com um personagem é como falar com alguém no leito de morte. Tudo se da ali como se fosse a última oportunidade, como se não tivessemos mais a obrigação de sustentar imagens que temos e não queriamos ter. É como contar segredos a alguém que nunca vai poder contá-los para mais ninguém.
E deixar-se tomar por um personagem implica na liberdade de deixar fluir por uma máscara quase morta aquilo que será censurado enquanto houver vida inteligente, independente da política ou das leis. O personagem, por ser todas as pessoas e nenhuma pessoa, pode ser o que ninguém se permite.
O personagem pode ser parcial para qualquer lado que quiser, pode defender o que quiser, o que muda o caráter da mentira que o ator por trás da máscara conta para representação. A partir do momento que o argumento do ator é transferido à boca do personagem, ele passa a ser apenas mais uma visão da realidade. E esse ponto de vista é ainda mais eficiente do que se fosse dado por um ser humano. Contra o personagem nós não temos preconceitos humanos, resistências ou escudos, pois com eles não temos uma relação - como teriamos em qualquer relação humana - de interesse. Eles não vão querer nada de nós quando aquele momento chegar ao fim, nós não vamos querer nada deles quando o momento chegar ao fim, simplesmente porque eles não vão mais existir.
Falar com um personagem é como falar com alguém no leito de morte. Tudo se da ali como se fosse a última oportunidade, como se não tivessemos mais a obrigação de sustentar imagens que temos e não queriamos ter. É como contar segredos a alguém que nunca vai poder contá-los para mais ninguém.
E deixar-se tomar por um personagem implica na liberdade de deixar fluir por uma máscara quase morta aquilo que será censurado enquanto houver vida inteligente, independente da política ou das leis. O personagem, por ser todas as pessoas e nenhuma pessoa, pode ser o que ninguém se permite.
segunda-feira, 11 de abril de 2011
Fazer sempre a cena, qualquer que seja, acontecer.
"Pra semana que vem eu queria escolher os atores e atrizes que eu quiser para fazer as cenas que eu quiser. Não quer dizer que isso vai ser a formação final para a peça, apenas que eu quero dividir as pessoas de um modo que nós provavelmente veremos a cena acontecer."
E não é apenas disso que se trata? De fazer, dentro das inúmeras possibilidades de "como", a cena realmente acontecer?
E não é apenas disso que se trata? De fazer, dentro das inúmeras possibilidades de "como", a cena realmente acontecer?
domingo, 10 de abril de 2011
Instante
Cansei de planos mirabolantes. Cansei dos meus clichés. Cansei do perfeccionismo. Cansei de ter medo de errar. Cansei de me julgar. Cansei de não me aceitar. Cansei de pensar pra falar.
Hoje eu só vivo. Hoje eu quero como companhia quem me acompanhar naquele dia. Hoje eu quero dia após dia.
Hoje eu só vivo. Hoje eu quero como companhia quem me acompanhar naquele dia. Hoje eu quero dia após dia.
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