- Cala a boca e faz!
- Grato pela dica...
- Disponha.
domingo, 27 de março de 2011
quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011
Serviço de Mesa
- Calabresa ou brócolis, senhor?
- Pode deixar que eu me sirvo, obrigado.
- De maneira alguma senhor, estou aqui para isso.
- Mas está tudo bem, mesmo. Você tem mais mesas para atender e eu sei como me servir sozinho, não precisa se preocupar.
- Senhor, é para isso que eu sou pago, para servir. Agora me passe o prato e diga o sabor, por gentileza.
(pausa)
- Rúcula.
- O senhor pediu brócolis e calabresa, senhor.
- Não, pedi rúcula.
- Mas o pedido que eu anotei não falava nada sobre rúcula... senhor.
- Você não está aqui para servir?
- Claro, senhor.
- Pois bem, agora estou pedindo um pedaço de rúcula.
- Quer uma pizza de rúcula senhor?
- Não, quero uma fatia de pizza de rúcula.
- Mas o senhor não pediu uma pizza de rúcula da qual eu possa tirar uma fatia de pizza de rúcula, senhor.
- E para que você está aqui, então?
- Para servir o senhor.
- Pois se está aqui para me servir também precisa ser capaz de fazer algo que não consigo. Trate de abrir aquela tampa e me servir um pedaço de rúcula.
- Mas senhor, isso é impossível!
- E o que é possível então?
- Um pedaço de calabresa ou brócolis, senhor.
- Sabe amarrar cadarços?
- Sei sim senhor.
- Pode amarrar para mim?
- Claro, senhor. (amarra)
- Calabresa por favor. (serve) Pode me ajudar a comer?
- A comer, senhor?
- Sim, a comer. Corte para mim.
- Pois não, senhor. (corta)
- Ah (abre a boca)
- O... senhor...
- Vamos, estou com fome! (abre mais a boca. o garçom coloca o primeiro pedaço na boca do cliente. cliente leva muito tempo mastigando e se deliciando com a pizza enquanto o garçom espera com o outro pedaço no garfo. em dado momento o garçom se cansa da espera, ele tem outras mesas que o esperam)
- O senhor não consegue comer sozinho, senhor?
- Consigo. Qual é o seu nome?
- Sérgio, senhor.
- Sérgio Senhor?
- Não. Sérgio, senhor. Mas por que o senhor precisa da minha ajuda para comer, senhor?
- Eu não preciso da sua ajuda para comer. Você está aqui para me servir e está sendo pago por isso, então quero que me alimente, só isso.
- Mas o senhor pode comer sozinho, senhor.
- Também posso pegar um pedaço de pizza e colocar no meu prato sozinho. Mais um pedaço. (abre a boca)
- (dando mais um pedaço) Mas um garçom não põe comida na boca dos clientes, senhor. As pessoas devem comer por elas mesmas.
- Desamarrou meu cadarço Sérgio Senhor.
- (amarrando-os) É Sérgio, senhor.
- (ignorando) Por que é que as pessoas devem comer por elas mesmas se elas estão pagando para serem servidas? Isso não faz sentido.
- Não senhor.
- Concorda comigo?
- Sim senhor.
- Sujei meu queixo. (sérgio pega o guardanapo do colo do cliente e limpa seu queixo. continua dando-o pedaços de pizza) Sabe, quando estava vindo para cá perdi o meu celular, será que pode me dar o seu?
- Meu celular, senhor?
- Seu sobrenome é igual ao sobrenome do seu celular?
- Meu sobrenome é Razzo, senhor.
- Nunca vi igual... o celular.
- Claro. (tira o celular do bolso e da para o cliente)
- Então não serve, minha mulher só tem Vivo. Você tem mulher?
- Está no caixa, senhor.
- A que horas ela sai do serviço?
- Está saindo agora mesmo, senhor.
- Diga a ela que se troque para viajem. Embrulhe o resto da pizza para viajem também.
- Agora mesmo, senhor. (sai para falar com a mulher. Cliente se prepara para sair, pega a carteira do bolso traseiro da calça, olha e a guarda de volta. Levanta em algum momento para esperar)
- (Sérgio volta com a mulher usando um vestido vermelho e com a pizza na mão) Acho que perdi minha carteira também. Pode pagar para mim?
- Seria um prazer, senhor.
- (passando o braço pela cintura da mulher de Sérgio) Pode incluir os dez por cento Sérgio, adorei o serviço. E fique com a pizza.
- Obrigado senhor, e volte sempre! (cliente sai com a mulher de Sérgio. Sérgio sorri cordial no centro do palco enquanto luzes diminuem)
sábado, 24 de julho de 2010
Vício de Louco
O pensamento é algo tão variável.
Sorte que os Loucos da geração anterior deixaram material para lembrarmos que também somos pessoas normais, com a pequena diferença de que a vida não nos faz sentido sem prazer.
E com mais uma pequena diferença de que os nossos prazeres mais sublimes se encontram em geral nos lugares mais desvalorizados pelo senso comum. Em lugares que podem parecer ridículos e sem sentido para os sãos.
E com mais uma terceira. Se não ganharmos a vida praticando prazer, então não vivemos. Tudo perde o sentido. Somos os maiores criadores. Mas somos também os criadores mais fáceis de se derrubar. Basta tirar-nos o prazer e não restam armas para lutar.
Tire o que me pertence. Mas não tire o que me motiva.
Os maiores prazeres são os que podem ser diretamente assimilados pelos sentidos.
Sorte que os Loucos da geração anterior deixaram material para lembrarmos que também somos pessoas normais, com a pequena diferença de que a vida não nos faz sentido sem prazer.
E com mais uma pequena diferença de que os nossos prazeres mais sublimes se encontram em geral nos lugares mais desvalorizados pelo senso comum. Em lugares que podem parecer ridículos e sem sentido para os sãos.
E com mais uma terceira. Se não ganharmos a vida praticando prazer, então não vivemos. Tudo perde o sentido. Somos os maiores criadores. Mas somos também os criadores mais fáceis de se derrubar. Basta tirar-nos o prazer e não restam armas para lutar.
Tire o que me pertence. Mas não tire o que me motiva.
Os maiores prazeres são os que podem ser diretamente assimilados pelos sentidos.
terça-feira, 1 de junho de 2010
E o mais triste...
E o mais triste é que amanhã acordaremos. E que seremos os mesmos hipócritas de sempre. Porque não há vida em sociedade sem a hipocrisia. E é hipócrita aquele que negá-lo.
E o mais triste é que amanhã acordaremos. E que seremos os mesmos hipócritas de sempre. Porque não há meio de sermos cem por cento espontâneos sem que as pessoas fujam de medo de nosso subtexto oculto. E hipócrita é aquele que negá-lo.
E o mais triste é que amanhã acordaremos. E que seremos os mesmos hipócritas de sempre. Porque uma vez em nossa infantil ingenuidade quando tentamos ser espontâneos e dizer ao outro o que realmente sentiamos, descobrimos da pior forma possível que esta é a pior forma possível de se aproximar de alguém.
Descobrimos da pior forma possível que o ser humano é um jogador. Porque se não formos atraídos para uma armadilha, logo veremos que somos presa. E fugiremos de medo. Saberemos a resposta para o enigma. E fugiremos de orgulho. Porque o ser humano é um jogador. E hipócrita é aquele que negá-lo.
....
E o mais triste é que amanhã acordaremos.
segunda-feira, 10 de maio de 2010
Faz frio em São Paulo. Vou beber, fumar e cantar. Até que o vizinho reclame do barulho no 908.
Faz frio em São Paulo. A cidade acontece em camera lenta. Os batimentos cardíacos duram minutos. O sangue não da conta. O corpo está frio. Mais frio. A ponto de os faróis dos carros aquecerem a pequena São Paulo. E ainda faz frio.
Os olhares se demoram mais do que de costume nos olhos dos outros. Minha expressão já não me incomoda - pensem o que quiserem.
- Dois e setenta.
A passagem está cara.
O mundo lá fora se demora, os faróis se misturam. Chego em minha parada. A loja 24h do posto me chama atençao. Eu havia prometido a mim mesmo não gastar mais dinheiro para deixar álcool estocado, temporariamente, em casa.
- Quarenta e quatro e setenta.
Quase interferi no valor final mas lembrei que já tinha cigarro no bolso de uma jaqueta em casa. Não fumava já há um bom tempo. Tudo era muito lento. Mas ainda assim, não senti que levei mais de meio segundo para chegar em casa.
Está gelado. Minha cabeça nega qualquer som que tente penetrar. Se entra alguma imagem, passa direto para o esquecimento. O mundo todo passa diante de mim. Estou em suspensão.
Tudo o que tem alguma relação com profundidade é automaticamente bloqueado. Doce engano de um jovem poeta. Sempre escrevendo sobre o amor. Sempre tentando decifrá-lo, sempre. Para isso basta que esteja à margem. É só mergulhar para que o mais gélido inverno faça-o lembrar. O amor não é para ele. O amor é para quem não pensa sobre isso. Quem pensa acaba chegando à trágica conclusão de que a melhor parte deste é a sua idealização. Quando ele acontece, tudo cai por terra.
E quanto à profundidade? Ha-ha... ninguém mais quer esse lixo. Liberdade, independência e auto suficiência estão na ordem do dia. Idiotas somos nós, que vivemos buscando no futuro um tipo de relação que só existe no passado sendo, portando, utópica. A relação de hoje dispensa a relação. Basta o momento.
- Meia noite.
Bruce é o único que consegue manter uma relação, qualquer que seja ela, por mais de alguns momentos. Ele não existe. É fruto da minha imaginação. E isso o torna tão real quanto os que, sem existir, vagam por ai.
- Um cigarro.
Ele não disse isso, mas é o que vejo vindo da boca de um morador de um apartamento próximo. Vejo sua silhueta de longe, jogando um filtro em brasa pela janela, fazendo um convite para a fria noite que vem. Uma cerveja.
November Rain - Guns N'Roses
sexta-feira, 2 de outubro de 2009
O Amante
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O Amante
- (entrando pela esquerda) “Quem sabe um dia tudo muda, e não iremos mais atrás. Quem sabe um dia tudo muda e buscaremos no outro a paz. Vai ver o amor vira certeza quando o medo perde a vez”...
- (sentado, quase imperceptível em um canto escuro à direita) Vai ver um bom tapa na cara te faz ver o que é que fez!
- Ta falando comigo?
- Que te que parece?
- Que és um louco!
- Pra sua sorte. Então me diga, de que covarde é o verso?
- Me respeite, homem!
- Tens medo da verdade?
- Tens amor pela vida?
- Te devolvo a pergunta.
- Fale de uma vez! O que queres?
- Eu nada. Fale de uma vez o que queres.
- E de que adianta? Vai dizer agora que tenho três desejos?
- Nem que tivesse.
- (desconcertado) Desculpe. Não estou nos meus melhores dias.
- Vá em frente.
- É uma mulher...
- Me poupe do que eu já sei.
- (tímido) Está na cara, não é?
- Em alto relevo.
- Depois do meu último romance, decidi que nunca mais procuraria um alguém pra apaixonar-me outra vez. Decidi que viveria minha vida até que nela aparecesse uma moça singular. Alguém que tudo me causasse, simultânea e intensamente, com o mais simples olhar.
- E agora vai fugir?
- Como sabe que encontrei?
- “Vai ver o amor vira certeza quando o medo perde a vez”. Qual é o teu problema? Até pra mim já é certeza. Alto relevo, lembra?
- Bem... não achei que pudesse realmente acontecer. Não esperava algo assim por pelo menos uma vida. E de repente me aparece bem de baixo do nariz.
- Tome-a!
- (riso desanimado) “Serei do rio um afluente, do vulcão pequeno estouro, da montanha vento uivante, da amada o amante. Cada dia diferente, do fenômeno sou fonte, que alimenta, amplifica, acaricia e contém”. Não sou mais que um dia é para um ano. Tão indispensável quanto insignificante.
- Se contenta em ser tão pouco?
- Antes pouco do que nada.
- E se contenta?
- Tenho escolha?
- Um dia não pode ser ano.
- (sarcástico) Tenho que anotar isso.
- Mas pode ser um feriado.
- E se quiser ser ano?
- Vai se estrepar.
- (pensativo) Não é tão louco assim.
- Faço meu melhor.
- Por que seria feriado, então?
- Pra se destacar dos outros.
- Ainda assim seria dia.
- Se fosse ano, um espelho resolvia.
- Tens razão. Está me deixando tonto. Que devo fazer então?
- Perguntas a um louco?
- E o que me resta quando todos os outros estão sãos?
- (pensando por um momento) É ela quem você quer?
- Mais do que tudo.
- É por ela que você escreve?
- E respiro.
- É ela que te faz dizer essas coisas idiotas?
- Tanto assim?
- Mais que isso.
- (derrotado) É, é ela.
- Então não preciso responder.
- Como assim? Eu te disse tudo!
- Se disse tudo o que sabe, sabe tanto quanto eu.
- Mas eu não sou louco!
- Faça um esforço.
- Covarde!
- Louco.(pausa)
- E se a tomo como dizes?
- Um dia ela se cansa.
- E como fico eu?
- Só
- (sarcástico) Fascinante
- Mas quando tudo acabar poderá dizer que foi alguma coisa.
- E se não acabar?
- (tomando as anotações do covarde e lendo-as) “...nessa história o fim se segue de sentido, de significado, e, a partir daí, cada nova ação, cada nova intenção, ganha originalidade única, toma formas inéditas, e os atores não se cansam, não se largam, estão em paz”.
- Me parece tão irreal, a narração.
- Ainda assim a escreveu.
- (vago) Tenho esperanças.
- E medo.
- Não sei se serei capaz de viver só depois de ter experimentado viver um sonho.
- Um sonho é o que está vivendo agora.
- E se a tomo?
- Será real.
- E se ela se cansa?
- Terá sido real.
- E se for amante?
- Vive um sonho.
- E se for o que quero?
- Não é.
- Como pode saber?
- (de memória) “Vai ver o amor vira certeza quando o medo perde a vez”.
- O que tem isso?
- Não vê que já tens a certeza? E que a esconde atrás do medo?
- Isso foi direto.
- Sou covarde.
- E está certo. Estou vivendo uma vida à espera do destino.
- E esperando ele não chega.
- Não.
- E então?
- Farei o amor virar certeza. Renunciarei ao controle da minha vida. Isso deve ficar nas mãos de quem há muito já a tem, ainda que eu não quisesse ver.
- E vai se submeter às consequências de ações que não poderá controlar?(pausa)
- Sou louco.
Personagens:
O Covarde
O Louco
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