Há os que falam mal e os que fazem mal.
Os que falam mal ou já fazem bem ou estão se bloqueando pois, ao falar mal, estão desqualificando aquilo que um dia terão que aprender a fazer. E certamente farão mal até que esteja bem treinado. Logo, desqualificam seu próprio futuro aprendizado.
Agora, se já fazem bem então estão se enganando. Só fazem menos pior pois nunca será perfeito. Que numero está mais próximo ao zero, o um ou o cem? Se considerarmos que existem infinitos números entre zero e cem e que também existem infinitos números entre zero e um então 1 = 100 em relação ao zero, apesar de o espaço entre eles também ser infinito... deu pra pegar a analogia né?
Portanto, não há quem faça bem. Há aquele que já errou mais e, por isso, quanto mais se aproxima do "cem" menos os "uns" percebem seus erros, que são mais perceptíveis para os que erram a mais tempo e mais aos que erram por menos tempo. Isso se é que se pode chamar de erro no lugar de realização inadequada a determinado objetivo.
E há os que fazem mal. Os que fazem mal são todos os que fazem. Então por que falar mal? Porque assim nos poupamos ao trabalho de cometer erros. E também de aprender com eles. E não aprendendo nos privamos de ser o infinito, seja ele mais próximo de um ou de cem, para nos tornarmos pontualmente o zero. Sem profundidade, sem diversidade, sem multiplicidade e sem sentido. Um zero que aponta em todas as direções sem nunca experimentar nenhuma.
Mas veja pelo lado bom. O zero é feliz. ;-)
Falando na lata:
Se você acha que sabe, não sabe de nada. Quanto menos você acha que sabe, mais você já deixou de não saber. Não estou falando nenhuma novidade. O que nos resta é passar a vida a brincar com nossos infinitos erros. Pois brincando com eles nos permitiremos errar mais. E errando mais, mais infinitos seremos.
quinta-feira, 15 de março de 2018
Deixe as crianças brincarem.
Deixe as crianças brincarem.
Está nas crianças a imagem daquilo que somos.
Deixe as crianças brincarem. Permita que elas aprendam a gostar da vida. Permita que elas descubram, percebam, criem.
Deixe que elas brinquem e criem assim sua própria visão de mundo, não a que nós temos. Não induza a próxima geração a ser errada como nós. Não ensine que quebrar é errado. Não ensine que sujar é errado. Não ensine que não devemos fazer barulho.
Não ensine que errar é errado.
Não ensine. Saiba que a criança que brinca aprende muito mais do que o pouco que nós temos a passar.
Incentive. Permita que nossas crianças nos superem. Não tenha medo disso. Permita que nossas crianças não nos vejam como heróis, como sábios donos da verdade e velhos conhecedores da vida.
Brinque.
Não se deixe acreditar que a vida é séria. Não se deixe acreditar que você é importante. Não coloque esse peso nas suas costas.
Brinque, porque nós somos um dos poucos animais que tem essa necessidade. Aceite que nossa desimportante vida não deve ser vivida em vão.
Aceite suas obrigações. Você é obrigado a brincar, a não levar tudo tão a sério, a rir, a amar, a fazer nada com os amigos e a gastar dinheiro apenas com coisas desimportantes.
Status é muito importante. Estilo é muito importante. Poder é muito importante. Acumular dinheiro é importante. Segurança é importante. Não perca seu tempo com isso.
Jogue bola com seu filho. Beba, sim, mas faça-o acompanhado. Erre com vontade. Ria dos erros porque, assim que corrigi-lo, virão outros. Tenha por objetivo errar. Porque quanto mais erros cometemos, mais conhecimento temos para poder errar muito mais.
Não acredite que um homem sábio é aquele que sabe. Ele sabe tão pouco quanto qualquer outro. Mas tem consciência disso. E aprendeu a aceitar sua ignorância.
Ouça as crianças. Elas não tem a maturidade para dizer o que queremos ouvir. Elas ainda não aprenderam a ser cordiais. Elas não aprenderam a evitar conflitos. Elas ainda não desenvolveram a habilidade de contribuir com a perpetuação das convenções sociais, engessadas pela cultura do lugar onde crescemos. É delas que vamos ouvir o que realmente somos. Elas que vão nos mostrar o que nós escondemos de nós mesmos, por trás da moral e da lógica social na qual estamos imersos. Elas conseguem ver de fora o nosso comportamento estranho e paradoxal porque ainda não viveram tempo suficiente para ficarem totalmente imersas em nosso aquário normativo.
Tenha um animal de estimação. Muito tempo com humanos pode ser prejudicial. Ficar sozinho nem sempre resolve. Você é um ser humano.
Se nada disso servir para você, tudo bem. Viva a sua vida como quiser. Mas permita que o mundo mude. Deixe as crianças brincarem.
Está nas crianças a imagem daquilo que somos.
Deixe as crianças brincarem. Permita que elas aprendam a gostar da vida. Permita que elas descubram, percebam, criem.
Deixe que elas brinquem e criem assim sua própria visão de mundo, não a que nós temos. Não induza a próxima geração a ser errada como nós. Não ensine que quebrar é errado. Não ensine que sujar é errado. Não ensine que não devemos fazer barulho.
Não ensine que errar é errado.
Não ensine. Saiba que a criança que brinca aprende muito mais do que o pouco que nós temos a passar.
Incentive. Permita que nossas crianças nos superem. Não tenha medo disso. Permita que nossas crianças não nos vejam como heróis, como sábios donos da verdade e velhos conhecedores da vida.
Brinque.
Não se deixe acreditar que a vida é séria. Não se deixe acreditar que você é importante. Não coloque esse peso nas suas costas.
Brinque, porque nós somos um dos poucos animais que tem essa necessidade. Aceite que nossa desimportante vida não deve ser vivida em vão.
Aceite suas obrigações. Você é obrigado a brincar, a não levar tudo tão a sério, a rir, a amar, a fazer nada com os amigos e a gastar dinheiro apenas com coisas desimportantes.
Status é muito importante. Estilo é muito importante. Poder é muito importante. Acumular dinheiro é importante. Segurança é importante. Não perca seu tempo com isso.
Jogue bola com seu filho. Beba, sim, mas faça-o acompanhado. Erre com vontade. Ria dos erros porque, assim que corrigi-lo, virão outros. Tenha por objetivo errar. Porque quanto mais erros cometemos, mais conhecimento temos para poder errar muito mais.
Não acredite que um homem sábio é aquele que sabe. Ele sabe tão pouco quanto qualquer outro. Mas tem consciência disso. E aprendeu a aceitar sua ignorância.
Ouça as crianças. Elas não tem a maturidade para dizer o que queremos ouvir. Elas ainda não aprenderam a ser cordiais. Elas não aprenderam a evitar conflitos. Elas ainda não desenvolveram a habilidade de contribuir com a perpetuação das convenções sociais, engessadas pela cultura do lugar onde crescemos. É delas que vamos ouvir o que realmente somos. Elas que vão nos mostrar o que nós escondemos de nós mesmos, por trás da moral e da lógica social na qual estamos imersos. Elas conseguem ver de fora o nosso comportamento estranho e paradoxal porque ainda não viveram tempo suficiente para ficarem totalmente imersas em nosso aquário normativo.
Tenha um animal de estimação. Muito tempo com humanos pode ser prejudicial. Ficar sozinho nem sempre resolve. Você é um ser humano.
Se nada disso servir para você, tudo bem. Viva a sua vida como quiser. Mas permita que o mundo mude. Deixe as crianças brincarem.
domingo, 25 de agosto de 2013
Nessa parede de madeira já preguei muita mágoa
Já soltei muita lágrima, já fumei muito cigarro
Esperneei, refleti e até batuquei um som ou outro
E a madeira já sumiu de tanto prego que enfiei
Uns vinham só pra ver, outros vinham papear
E havia quem viesse pra tentar analisar
Tanto se viu, tanto se fez, tanto se falou que até desfez
A vontade, a sinceridade, a liberdade de poder contar
Ou soletrar, ou pontuar, ou só deixar em suspensão, simplesmente... fuff...
Cada ponto é um sintoma de uma doença doutro alguém
Douto alguém
Atribuída a mim, ou à parede de madeira
Ou à muralha de pregos, ou ao adorno improvisado
Que fizeram, de pedras rachadas no chão
Da realeza que precisa projetar a frustração
E que não sabe que a doença está em crer no deus felicidade
Que a ambição da nova geração não é mais a eternidade
Viver a vida já está bom se puder ser sem se matar aos poucos
Já soltei muita lágrima, já fumei muito cigarro
Esperneei, refleti e até batuquei um som ou outro
E a madeira já sumiu de tanto prego que enfiei
Uns vinham só pra ver, outros vinham papear
E havia quem viesse pra tentar analisar
Tanto se viu, tanto se fez, tanto se falou que até desfez
A vontade, a sinceridade, a liberdade de poder contar
Ou soletrar, ou pontuar, ou só deixar em suspensão, simplesmente... fuff...
Cada ponto é um sintoma de uma doença doutro alguém
Douto alguém
Atribuída a mim, ou à parede de madeira
Ou à muralha de pregos, ou ao adorno improvisado
Que fizeram, de pedras rachadas no chão
Da realeza que precisa projetar a frustração
E que não sabe que a doença está em crer no deus felicidade
Que a ambição da nova geração não é mais a eternidade
Viver a vida já está bom se puder ser sem se matar aos poucos
domingo, 21 de outubro de 2012
terça-feira, 2 de outubro de 2012
Relatório de pensamento criativo - São Paulo, 03/10 2012 - Turno: Manhã.
Resta tão pouco em que acreditar, sonhar.
Essa realidade inventada tolhe tanto.
Sobra tão pouco espaço imaginário pra pensar, criar.
Que quando, raro, ocorre um momento de "iluminação", subitamente ele aflora, sintetiza e explode em palavras. Poucas.
Final.
Essa realidade inventada tolhe tanto.
Sobra tão pouco espaço imaginário pra pensar, criar.
Que quando, raro, ocorre um momento de "iluminação", subitamente ele aflora, sintetiza e explode em palavras. Poucas.
Final.
terça-feira, 7 de agosto de 2012
O mais legal de estar nessa fase de merda da vida é que sempre tem um ser superior, deus supremo, senhor da verdade que lê a sua mente pra poder falar que a culpa é sua, pra deslegitimar o esforço, pra desqualificar sem pensar duas vezes e não pra perceber que você está tentando se virar mas que tá foda. Tomar no cu!
segunda-feira, 26 de março de 2012
terça-feira, 14 de fevereiro de 2012
A arte de demonstrar o indemonstrável
Logo, podemos concluir que a vida é uma boa foda.
Q.E.D.
segunda-feira, 7 de novembro de 2011
sábado, 22 de outubro de 2011
No lugar certo
Acordei no meio da madrugada, sem sono. Olhei em volta e reparei na garrafa de água, que fica na prateleira mais baixa da porta da geladeira, em cima do criado mudo. Levantei, tomei um gole direto no gargalo, não a levei de volta para a cozinha. Deixei ali.
Fui até a cozinha e abri a geladeira: é o que se faz quando o sono vai embora, eu não queria beber nem comer nada. O suco - que fica na prateleira do meio da porta da geladeira, com a parte da frente virada para trás quando o suco está fechado e para frente quando está aberto - estava na prateleira de baixo, no lugar da água, com a parte da frente virada nem para trás nem para frente, mas para o lado. Estranhei.
Peguei o suco, coloquei um pouco num copo.(...) Devolvi a embalagem à prateleira de baixo da porta da geladeira, com a parte da frente virada para o lado. Enquanto bebia reparei que a escova de cabelos estava fora do banheiro, ao lado da tv da sala, que dava pra ver da cozinha. Voltei para o quarto e a deixei onde estava. A escova. A cozinha também.
Apaguei a luz e me deitei. Lembrei que a garrafa de água estava ali, em cima do criado mudo, fora do seu lugar de origem, ocupado pela caixa de suco virada para o lado errado, de onde dava pra ver que a escova de cabelos não estava no banheiro. Virei para o lado e dormi. Dormi muito bem.
Fui até a cozinha e abri a geladeira: é o que se faz quando o sono vai embora, eu não queria beber nem comer nada. O suco - que fica na prateleira do meio da porta da geladeira, com a parte da frente virada para trás quando o suco está fechado e para frente quando está aberto - estava na prateleira de baixo, no lugar da água, com a parte da frente virada nem para trás nem para frente, mas para o lado. Estranhei.
Peguei o suco, coloquei um pouco num copo.(...) Devolvi a embalagem à prateleira de baixo da porta da geladeira, com a parte da frente virada para o lado. Enquanto bebia reparei que a escova de cabelos estava fora do banheiro, ao lado da tv da sala, que dava pra ver da cozinha. Voltei para o quarto e a deixei onde estava. A escova. A cozinha também.
Apaguei a luz e me deitei. Lembrei que a garrafa de água estava ali, em cima do criado mudo, fora do seu lugar de origem, ocupado pela caixa de suco virada para o lado errado, de onde dava pra ver que a escova de cabelos não estava no banheiro. Virei para o lado e dormi. Dormi muito bem.
terça-feira, 23 de agosto de 2011
10:10
Certa noite, há pouco mais de um ano atrás, tive um sonho que não só me marcou como marcou uma transição definitiva no meu modo de pensar.
Antes de dormir combinei com meu pai que ele passaria em casa para me buscar as 10h da manhã do dia seguinte. Fui dormir e sonhei.
Sonhei que, no dia seguinte, acordei atrasado, 9:50h da manhã. Corri para o chuveiro e tomei - dentro do meu conceito - um banho rápido de cerca de dez minutos. Sai do chuveiro, me enxuguei, escovei os dentes, corri pela casa em busca de uma roupa que me agradasse, parte no armário, parte no varal. Fui me pentear e, neste dia em especial, meus cabelos resolveram demorar a aceitar uma forma minimamente civilizada.
Quando consegui algo próximo ao aceitável me apressei em colocar as meias e sentei-me no sofá da sala para calçar um par de tênis. Nesse instante, olhei para o relógio na parede ao lado que marcava 10:10h. Pensei aliviado que ele estava atrasado. Eu já estava pronto e agora só restava esperar. Respirei, aproveitei o tempo extra para brigar um pouco mais com o cabelo e dar uma fuçada na internet, sempre com o celular em mãos, preparado para parecer que eu estava preparado desde a hora marcada.
Cansado de matar o tempo livre, sentei-me novamente no sofá da sala para esperar e olhei o relógio de parede: 10:19h... quando é que ele chega? Vou dar mais um tempo e ligar. E então o celular toca, olho no relógio de parede antes de atender, 10:20h.
- Alou... - digo simulando uma voz mais aguda, diferente da voz grave de quem acabou de acordar.
- Pode descer que eu já to chegando na sua rua - diz ele. Desliguei o celular e acordei do sonho.
Como de costume, acordei atrasado, 9:50h da manhã. Corri para o chuveiro e tomei - dentro do meu conceito - um banho rápido de cerca de dez minutos. Sai do chuveiro, me enxuguei, escovei os dentes, corri pela casa em busca de uma roupa que me agradasse, parte no armário, parte no varal. Fui me pentear e, nesse dia em especial, meus cabelos resolveram demorar a aceitar uma forma minimamente civilizada.
Quando consegui algo próximo ao aceitável me apressei em colocar as meias e sentei-me no sofá da sala para calçar um par de tênis. Nesse instante, olhei para o relógio na parede ao lado que marcava 10:10h...
- Impossível... - em um segundo veio à minha cabeça a lebrança de todo aquele sonho que acabara de ter. Até então não me lembrava dele - acordei daquele jeito meio capenga, meio com pressa que sempre tira da cabeça da gente qualquer sonho, instantaneamente. E no segundo seguinte eu tinha, não a sensação, mas a certeza mais absoluta e profunda que se pode ter de que meu celular tocaria em exatos dez minutos. Eu já estava pronto e agora só restava esperar.
- Idiota, você deve estar delirando - disse a mim mesmo, mas fracassei na tentativa de abalar minha certeza naquilo que estava para acontecer. E então, por algum motivo desses que não me atrevo a tentar deduzir qual, minha mente bloqueou esse pensamento, o do sonho.
Levantei-me do sofá, respirei. Aproveitei o tempo extra para brigar um pouco mais com o cabelo e dar uma fuçada na internet, sempre com o celular em mãos, preparado para parecer que eu estava preparado desde a hora marcada. Cansado de matar o tempo livre, sentei-me novamente no sofá da sala para esperar e olhei o relógio de parede: 10:19h...
- Porra! - Me arrepiei por inteiro diante do susto que me provocou a súbita retomada da lembrança daquele sonho. Fiquei ali, sentado. Congelado com o celular em mãos, diante da certeza do que viria a seguir. Era uma sensação estranha: ao mesmo tempo que estava aflito e paralisado com aquela incontrolável soberania sobre o tempo, sentia-me poderoso.
Hesitei por algum tempo em olhar o relógio. Olhei. O tempo parecia que não passava, 10:19h: cinquenta e quatro, cinquenta e cinco, cinquenta e seis, cinquenta e sete, cinquenta e oito, cinquenta e nove.... 10:20h, o celular toca:
- Alou... - digo simulando uma voz mais aguda, diferente da voz grave de quem acabou de acordar.
- Pode descer que eu já to chegando na sua rua.
Antes de dormir combinei com meu pai que ele passaria em casa para me buscar as 10h da manhã do dia seguinte. Fui dormir e sonhei.
Sonhei que, no dia seguinte, acordei atrasado, 9:50h da manhã. Corri para o chuveiro e tomei - dentro do meu conceito - um banho rápido de cerca de dez minutos. Sai do chuveiro, me enxuguei, escovei os dentes, corri pela casa em busca de uma roupa que me agradasse, parte no armário, parte no varal. Fui me pentear e, neste dia em especial, meus cabelos resolveram demorar a aceitar uma forma minimamente civilizada.
Quando consegui algo próximo ao aceitável me apressei em colocar as meias e sentei-me no sofá da sala para calçar um par de tênis. Nesse instante, olhei para o relógio na parede ao lado que marcava 10:10h. Pensei aliviado que ele estava atrasado. Eu já estava pronto e agora só restava esperar. Respirei, aproveitei o tempo extra para brigar um pouco mais com o cabelo e dar uma fuçada na internet, sempre com o celular em mãos, preparado para parecer que eu estava preparado desde a hora marcada.
Cansado de matar o tempo livre, sentei-me novamente no sofá da sala para esperar e olhei o relógio de parede: 10:19h... quando é que ele chega? Vou dar mais um tempo e ligar. E então o celular toca, olho no relógio de parede antes de atender, 10:20h.
- Alou... - digo simulando uma voz mais aguda, diferente da voz grave de quem acabou de acordar.
- Pode descer que eu já to chegando na sua rua - diz ele. Desliguei o celular e acordei do sonho.
Como de costume, acordei atrasado, 9:50h da manhã. Corri para o chuveiro e tomei - dentro do meu conceito - um banho rápido de cerca de dez minutos. Sai do chuveiro, me enxuguei, escovei os dentes, corri pela casa em busca de uma roupa que me agradasse, parte no armário, parte no varal. Fui me pentear e, nesse dia em especial, meus cabelos resolveram demorar a aceitar uma forma minimamente civilizada.
Quando consegui algo próximo ao aceitável me apressei em colocar as meias e sentei-me no sofá da sala para calçar um par de tênis. Nesse instante, olhei para o relógio na parede ao lado que marcava 10:10h...
- Impossível... - em um segundo veio à minha cabeça a lebrança de todo aquele sonho que acabara de ter. Até então não me lembrava dele - acordei daquele jeito meio capenga, meio com pressa que sempre tira da cabeça da gente qualquer sonho, instantaneamente. E no segundo seguinte eu tinha, não a sensação, mas a certeza mais absoluta e profunda que se pode ter de que meu celular tocaria em exatos dez minutos. Eu já estava pronto e agora só restava esperar.
- Idiota, você deve estar delirando - disse a mim mesmo, mas fracassei na tentativa de abalar minha certeza naquilo que estava para acontecer. E então, por algum motivo desses que não me atrevo a tentar deduzir qual, minha mente bloqueou esse pensamento, o do sonho.
Levantei-me do sofá, respirei. Aproveitei o tempo extra para brigar um pouco mais com o cabelo e dar uma fuçada na internet, sempre com o celular em mãos, preparado para parecer que eu estava preparado desde a hora marcada. Cansado de matar o tempo livre, sentei-me novamente no sofá da sala para esperar e olhei o relógio de parede: 10:19h...
- Porra! - Me arrepiei por inteiro diante do susto que me provocou a súbita retomada da lembrança daquele sonho. Fiquei ali, sentado. Congelado com o celular em mãos, diante da certeza do que viria a seguir. Era uma sensação estranha: ao mesmo tempo que estava aflito e paralisado com aquela incontrolável soberania sobre o tempo, sentia-me poderoso.
Hesitei por algum tempo em olhar o relógio. Olhei. O tempo parecia que não passava, 10:19h: cinquenta e quatro, cinquenta e cinco, cinquenta e seis, cinquenta e sete, cinquenta e oito, cinquenta e nove.... 10:20h, o celular toca:
- Alou... - digo simulando uma voz mais aguda, diferente da voz grave de quem acabou de acordar.
- Pode descer que eu já to chegando na sua rua.
segunda-feira, 8 de agosto de 2011
Um homem saiu na rua, virou a esquina e tomou dois tiros na cabeça. Seu filho recebeu a notícia, saiu correndo, tropeçou e caiu de uma ponte. Morreu. A mulher que assistia se assustou. Enfartou. Morreu. O cachorrinho da senhora saiu correndo. Foi atropelado. Morreu. O carro que tentou desviar bateu na porta de um outro que vinha cruzando. Capotou três vezes. Morreu e matou o motorista do outro carro. Um chinês morreu. Não sei porque, mas com certeza um chinês morreu neste minuto. Um avião caiu. Todos morreram. Ele caiu no centro de São Paulo. Várias pessoas morreram também. Várias pessoas receberam a notícia das mortes. Várias enfartaram. Muitas se mataram. Algumas se revoltaram e saíram na rua atirando. A polícia não gostou. Saiu atirando também. A população se revoltou e começou a matar policiais e civis com tacos de basebol, canivetes, pedaços de pau, flechas envenenadas, lanças, arpões de pesca, pás, garrafas de vinho quebradas, alicates, cortadores de unha, vassouras, cadeiras, serras elétricas, mordidas. A notícia foi se espalhando e o mundo inteiro se matou. Acabou a raça humana. Fim.
Assinar:
Postagens (Atom)