quinta-feira, 15 de março de 2018

Estado de Êxtase

Um objeto muito fino e frio toca a superfície da pele

Devagar, desce pela lateral do pescoço
Contorna os ombros e desce pelas costas
riscando toda a espinha...
Contorna o quadril
e desce pela perna em espiral

Passa por tras dos joelhos
contorna a panturrilha
Risca a lateral dos pés
e aos poucos vai desenhando por todo o corpo

Faz o caminho de volta e começa novamente...

Aquela sensação continua percorrendo todo o corpo
suave e pontual.

Logo, a ponta fria de mais um objeto começa a percorrer o corpo
por um caminho diferente
num ritmo diferente...

E então um terceiro,
e um quarto ponto...

A vontade é de que apareçam mais desses objetos
Cada traçado causa prazer
Mas, mais do que isso,
causa o desejo de que aquela sensação pontual se multiplique,
que se espalhe por todo o corpo,
e de que se intensifique...

Mais e mais pontos começam a acariciar a pele
Mas muito lentamente
e com um toque tão leve que quase não se sente

Simultâneo ao prazer surge a ansiedade e a angústia
de ter apenas uma série de tímidas carícias

Agora os objetos obedecem.

Toquem com mais peso
Acariciem com toda sua superfície
Envolva até que já não reste nenhum ponto de contado vazio
Distribua esta deliciosa sensação por todo o meu corpo
e eleve ao máximo sua intensidade
Mergulhe-me em estado de êxtase...



Incontáveis lâminas perfuram a carne.

Sobre o Paradoxo do Comediante

E ao fim do espetáculo, em meio a risos e gargalhadas do público, o artista se vai, infeliz. É que ele tem olhos para ver e sabe que tudo que os fez rir há pouco é parte da mais triste realidade. Por isso um comediante não poderia ser outra coisa se não um comediante: sua maior alegria é poder rir os risos da platéia e esquecer por breves momentos que ele pode ver, é poder sentir aquele riso bobo e tornar-se mais um entre os cegos; é poder fechar os olhos por alguns instantes e sentir, enfim, que ele também faz parte da humanidade.
Quanto mais preenchido mais vazio...

Mestres de festim

Passei da fase em que baixava a cabeça. Já neguei verdades de quem jamais imaginei contrapor. E algumas vezes já estive certo. Já tive aula com mestres que jamais imagino superar. Não nas especificidades às quais estes se propõem a estudar. Já conheci gênios incapazes de escrever um texto. Já conheci magníficos hipócritas, incapazes de fazer uma palavra do que dizem. Ainda assim, magníficos. O que fica de tudo isso é que tudo o que aprendi, para o honesto ou para o vil, me foi passado por pessoas que nada intencionavam passar. Por gênios que imaginavam nada saber. Por mestres que queriam um dia, talvez, saber algo sobre alguma coisa. As vagas de mestres na minha vida já estão ocupadas. E vão aos poucos sendo ocupadas por um ou outro ignorante de sua própria grandeza. Não há possibilidade alguma, pois, de me ver novamente subordinado a algum especialista acadêmico, de me ver obrigado a um mestre conhecedor da natureza humana por meio de livros. Pouco me toca o conhecimento adquirido pela simulação, o conhecimento de festim. E pouco me importa o "gênio" de quatro anos. Formado, diplomado. Nada menos do que uma longa vivência forma um mestre. Só há um ignorante que tem o direito de obscurecer meus pensamentos. E este sou eu. Fora isso não quero verdades de ninguém menos que um humilde.

Liberte-se. Entregue-se.



De acordo com a física, ninguém nem nenhum corpo tem força. Um corpo tem (ou não) a capacidade de aplicar uma força em outro. A força, portanto, não existe em lugar algum. Ela só pode surgir entre dois ou mais corpos, e apenas enquanto um interfere sobre o outro.

O reflexo em um espelho é a afirmação da existência do ser. Mas o ser, assim como a força, não é. Ele apenas está. É um instrumento de transição, tão mutável quanto o ar, a água. E é um evento que só acontece na medida em que interfere, que causa transformação no meio externo.

Por mais paradoxal que possa parecer, um ser que tem a sua existência afirmada por um espelho, portanto, não existe. Não existe pois a existência não se da em um lugar físico, como um corpo. Pois não é algo material, sólido. Assim como a força, na definição da física, a existência apenas se consolida no momento em que há relação. E como a força, deixa de existir quando não há mais contato, direto ou indireto.

Quebrar o espelho, pois, trata-se de negar a própria existência como identidade definida, como personalidade singular. Trata-se de recusar a própria materialidade, ilusão que nos faz acreditar que podemos criar. Porque a criação é algo que surge a partir de uma fonte única. E a fonte única não existe. Porque o ser por sí só não existe, assim como a força. Tudo o que podemos fazer, o que é muita coisa, é transformar. Transformar porque, recusando a própria materialidade, confirmada pelo espelho, passamos a interferir no outro. E é interferindo no outro que passamos não a criar, mas a transformar, fazendo surgir o novo.

O que gostamos de chamar de criação nada mais é do que a capacidade de afetar e de ser afetado - o que não pode ser separado, acontece simultaneamente - com uma intensidade e objetividade tal que permita que dessa relação surjam novas maneiras de afetar, o que muda a relação, o que desenvolve a relação, e assim estamos vivos.

Negar o próprio ego, no sentido de consciência da existência, de ser real, transforma o corpo em um processador de estímulos. Nada está nele. Nada sai dele ou chega a ele. Tudo passa por ele, transformando-o. Negar o próprio ego é de fato existir. Existir fora.

O ego não está em cada um. Está entre todos.

Luz

Hoje eu liguei minha tv. Sintonizei o rádio numa estação pop. Acordei em um horário de gente normal. Arrumei meu apartamento. Atendi o telefone da primeira vez que ele tocou. Abri as janelas para aproveitar os ares da manhã.
Tudo parece sólido. A realidade parece presente. Que engano. Realidade? Não acredito nisso, não. Mas agora ela me parece tão real. Quero fazer tudo igual. Nada diferente. Nada ao contrário do que uma pessoa considerada normal faria. Não quero ver algo diferente. Não quero ouvir algo diferente. Não quero fazer algo diferente. Acho que só isso já me traz tudo diferente. Porque se nunca quero fazer o que é igual e agora estou fazendo, então pra mim é diferente.
Acho que são os ares do dia. Tudo fica mais real. Não há intervalos de sombra que privilegiem a imaginação. Tudo está dado. Como num palco realista. Temos a impressão de que nada é relativo. Sabemos tudo. Vemos tudo. Ou ao menos pensamos que sim, por confiarmos de mais em nossos precários cinco sentidos.
Hoje? Sinto a necessidade do dia. Sinto a necessidade de ter certeza. Não me sinto disposto a ser flexível. Acho que finalmente entendi a função do dia para os notívagos: dar um descanso para a criatividade.

Ideal




Uma caixa fechada. Por fora escrito "ABRA".
A decisão é sua. Você pode abrir. Ou não.

Se ela ficar fechada você acaba imaginando uma série de possibilidades. Cada uma delas transforma o pensamento, traz sensações, emoções, altera o batimento, provoca transformação dentro e fora. Tudo isso preenche, imaginação e alma.

Mas você resolve abrir...

Não há nada. Está vazia. Tudo o que se vê é, no fundo da caixa, uma palavra escrita: "FECHE".

Assim é a vida.

O ofício dos amantes

Não é pelo prestígio. Não é pela fama. Não é pelo sucesso. Não é pela perfeição. Não é pra mostrar. Não é por mim.

É pelas pessoas. É por causa da paixão pelas pessoas que nasce a paixão por uma vivência.

E está ai o maior estímulo que se pode achar: o outro.

Teatro é só conseqüência. Algo que se faz junto. A verdadeira paixão acontece no subtexto.

Existe erro maior do que buscar estímulo em pessoas que não o estimulam?

O Gringo que Enxugava as Mãos



Duas e dez da manhã. O asfalto está molhado pela chuva que parou há pouco. Faz frio. São Paulo dorme.

Apresso o passo para sair logo da rua deserta. Depois da esquina me vejo em frente ao meu destino, um café 24h. Tiro o casaco, faço meu pedido no balcão e subo os degraus. Escolho para me sentar um sofá num canto oposto à escada, no fundo do salão, de onde vejo todo o movimento, das escadas ao corredor do toilette. Abro meu livro e começo a fazer anotações.

- Seu café, senhor.

Como de costume, estendo minha leitura noite a fora. O lugar se esvazia ao longo da próxima hora, restando apenas dois universitários debruçados sobre alguns livros grossos, falando baixo entre sí na língua dos números. De tempos em tempos a garçonete sobe trazendo pedidos e levando bandejas.

Lá pelo terceiro ou quarto café a chuva volta a cair, o que torna ainda mais envolvente aquele ambiente quente e aconchegante. Quase que simultaneamente à chuva ouço risos altos de um grupo de homens vindo do andar de baixo. O som vai aumentando e percebo que falam em inglês. Pouco tempo depois, quatro homens jovens e de pele muito clara emergem do vão das escadas momentos antes da garçonete, que traz mais dois cafés aos estudantes da outra mesa.

Os gringos se demoram em volta de uma mesa bem em frente ao corredor dos toilettes, bloqueando parcialmente minha visão. Eles não parecem ter dado muita atenção à minha figura monótona no outro canto, com um livro na mão.

- Ai meu Deus! Me desculpe!

- Não tem problema, não caiu em mim - disse um dos estudantes vendo seu café escorrendo da mesa para o sofá em que estava sentado um segundo atrás. Reflexos rápidos.

Ele trocou de lugar enquanto a garçonete colocava um pano no sofá molhado. Dois gringos haviam ido ao toilette. Um já voltara ao grupo, ainda em pé perto da mesa, enquanto o outro lavava as mãos na pia que se projetava para dentro de uma das paredes do corredor.

A garçonete se juntou ao último para lavar o pano sujo de café. Os outros três continuavam rindo em uma conversa mais baixa, e estranhamente pareciam cada vez mais próximos à entrada do corredor. Pouco se via - e ouvia - da garçonete e do gringo que agora enxugava as mãos. Os três aumentaram um pouco o som da conversa, não pareciam mais notar a presença dos outros dois atrás deles. Por entre os três corpos, agora quase grudados, era possível vislumbrar movimentos bruscos e rápidos e algumas pausas, até que não era mais possível entender a que corpo cada membro pertencia. Tudo o que se ouvia era alguns risos e trechos de frases soltas em meio a um murmúrio incessante, nada que levantasse alguma suspeita em olhos desatentos, visto que os três mantinham a mesma conversa empolgante de antes. Estavam todos tão próximos que mal se distinguia quem emitia cada som.

Passaram-se cerca de cinco minutos quando o gringo que enxugava as mãos quebrou a unidade espacial dos três colegas. Instantaneamente os risos aumentaram e a conversa acelerou enquanto os quatro dispersavam em grupo para o andar de baixo.

Os risos foram ficando distantes. Cessaram.

Os estudantes continuavam absortos em seus cálculos. Eu os invejava por isso. Não viam nada à sua volta quando distraídos com suas atividades.

A garçonete saiu do pequeno espaço onde a pia se projetava para dentro da parede do corredor, agora visível. Ela foi em direção à escada, rindo com uma expressão divertida e incrédula, onde encontrou os olhos de um outro funcionário - com uma expressão divertida, curiosa e com um leve traço de incredulidade também - cuja presença eu ignorava até o momento. Desceram cochichando.

Aqueles estudantes nunca vão saber da garçonete e do gringo que enxugava as mãos. Não viam nada à sua volta.

Vai Brasil!

Toda a rotina é de subito interrompida. Os meios de transporte de toda a cidade ficam superlotados. Os caminhos que as pessoas fazem de costume não são mais válidos, hoje nenhum fluxo humano é totalmente previsível. Os engarrafamentos se sustentam por pouco tempo devido aos fluxos variados.

...

Os pontos de ônibus se esvaziam. Os metrôs esvaziam. As ruas. Olho pela janela e não vejo de onde vem nenhum dos sons que ouço. Todos os grupos já estão concentrados em seus destinos.

Em alguns minutos todo um país vai parar para torcer pela publicidade, pela globalização, pela aculturação, pelo turismo sexual, pelo pão e pelo circo, pela concentração do capital nas chuteiras dos jogadores e nas pastas dos políticos e dos empresários.

Todos nós vamos apoiar o símbolo nacional de adesão à modernidade. São os nossos vanguardistas! Todos vamos gritar a cada gol, a cada milhão adicionado às chuteiras dos nossos iguais, a cada milhão a mais que morre de fome por conta disso.

E quando ganharmos mais um troféu vamos todos ao delírio. Viva o crescimento do turismo, da concentração do capital e do aumento do abismo entre iguais! Viva a "cultura" do futebol e do samba! Viva o fazer sem pensar! Viva a geração moldada para servir ao sistema e para sentir prazer com aquisições inúteis! Viva os teatros vazios! Viva o país de analfabetos funcionais! Viva o ideal de democracia que nos obriga a dar ouvidos a toda e qualquer asneira que nossos líderes inventam para despistar a revolta do povo! Viva a domesticação da revolta do povo!

A cidade me lembra um filme de zumbis.

Começa o jogo.

Mais um texto errado

Há os que falam mal e os que fazem mal.

Os que falam mal ou já fazem bem ou estão se bloqueando pois, ao falar mal, estão desqualificando aquilo que um dia terão que aprender a fazer. E certamente farão mal até que esteja bem treinado. Logo, desqualificam seu próprio futuro aprendizado.
Agora, se já fazem bem então estão se enganando. Só fazem menos pior pois nunca será perfeito. Que numero está mais próximo ao zero, o um ou o cem? Se considerarmos que existem infinitos números entre zero e cem e que também existem infinitos números entre zero e um então 1 = 100 em relação ao zero, apesar de o espaço entre eles também ser infinito... deu pra pegar a analogia né?

Portanto, não há quem faça bem. Há aquele que já errou mais e, por isso, quanto mais se aproxima do "cem" menos os "uns" percebem seus erros, que são mais perceptíveis para os que erram a mais tempo e mais aos que erram por menos tempo. Isso se é que se pode chamar de erro no lugar de realização inadequada a determinado objetivo.

E há os que fazem mal. Os que fazem mal são todos os que fazem. Então por que falar mal? Porque assim nos poupamos ao trabalho de cometer erros. E também de aprender com eles. E não aprendendo nos privamos de ser o infinito, seja ele mais próximo de um ou de cem, para nos tornarmos pontualmente o zero. Sem profundidade, sem diversidade, sem multiplicidade e sem sentido. Um zero que aponta em todas as direções sem nunca experimentar nenhuma.

Mas veja pelo lado bom. O zero é feliz. ;-)


Falando na lata:

Se você acha que sabe, não sabe de nada. Quanto menos você acha que sabe, mais você já deixou de não saber. Não estou falando nenhuma novidade. O que nos resta é passar a vida a brincar com nossos infinitos erros. Pois brincando com eles nos permitiremos errar mais. E errando mais, mais infinitos seremos.

Deixe as crianças brincarem.

Deixe as crianças brincarem.
Está nas crianças a imagem daquilo que somos.

Deixe as crianças brincarem. Permita que elas aprendam a gostar da vida. Permita que elas descubram, percebam, criem.

Deixe que elas brinquem e criem assim sua própria visão de mundo, não a que nós temos. Não induza a próxima geração a ser errada como nós. Não ensine que quebrar é errado. Não ensine que sujar é errado. Não ensine que não devemos fazer barulho.

Não ensine que errar é errado.

Não ensine. Saiba que a criança que brinca aprende muito mais do que o pouco que nós temos a passar.

Incentive. Permita que nossas crianças nos superem. Não tenha medo disso. Permita que nossas crianças não nos vejam como heróis, como sábios donos da verdade e velhos conhecedores da vida.

Brinque.

Não se deixe acreditar que a vida é séria. Não se deixe acreditar que você é importante. Não coloque esse peso nas suas costas.

Brinque, porque nós somos um dos poucos animais que tem essa necessidade. Aceite que nossa desimportante vida não deve ser vivida em vão.

Aceite suas obrigações. Você é obrigado a brincar, a não levar tudo tão a sério, a rir, a amar, a fazer nada com os amigos e a gastar dinheiro apenas com coisas desimportantes.

Status é muito importante. Estilo é muito importante. Poder é muito importante. Acumular dinheiro é importante. Segurança é importante. Não perca seu tempo com isso.

Jogue bola com seu filho. Beba, sim, mas faça-o acompanhado. Erre com vontade. Ria dos erros porque, assim que corrigi-lo, virão outros. Tenha por objetivo errar. Porque quanto mais erros cometemos, mais conhecimento temos para poder errar muito mais.

Não acredite que um homem sábio é aquele que sabe. Ele sabe tão pouco quanto qualquer outro. Mas tem consciência disso. E aprendeu a aceitar sua ignorância.

Ouça as crianças. Elas não tem a maturidade para dizer o que queremos ouvir. Elas ainda não aprenderam a ser cordiais. Elas não aprenderam a evitar conflitos. Elas ainda não desenvolveram a habilidade de contribuir com a perpetuação das convenções sociais, engessadas pela cultura do lugar onde crescemos. É delas que vamos ouvir o que realmente somos. Elas que vão nos mostrar o que nós escondemos de nós mesmos, por trás da moral e da lógica social na qual estamos imersos. Elas conseguem ver de fora o nosso comportamento estranho e paradoxal porque ainda não viveram tempo suficiente para ficarem totalmente imersas em nosso aquário normativo.

Tenha um animal de estimação. Muito tempo com humanos pode ser prejudicial. Ficar sozinho nem sempre resolve. Você é um ser humano.

Se nada disso servir para você, tudo bem. Viva a sua vida como quiser. Mas permita que o mundo mude. Deixe as crianças brincarem.